quinta-feira, 26 de agosto de 2010

CONTOS SOBRE A SOCIEDADE MODERNA

OU

UMA PARÓDIA SOBRE OS MESTRES DO JOGO

Parte I

Edison Rodrigues


Black

MARCUS
(V.O)

Verdades sobre um possível fim do mundo





INT – SALA DE CABANA – DIA

Marcus, 27 anos, barbado, sem camisa, de cabelos desgrenhados, calça jeans velha e de meias cinzas furadas. Ele está sentado num sofá virado para a televisão. Atrás dele duas janelas.
Marcus está com o olhar parado para a televisão.

Atrás dele, pela janela. Bananas caem do céu.

MARCUS
(v.o)

Bananas caíam do céu, o aviso de falsos governantes furtando bolsas e penhores enlouquecidos não me incomodavam naquela manhã do dia 30 de fevereiro.

Detalhe de um calendário (estilo americano) : com um 30 em caixa alta e FEVEREIRO escrito logo abaixo do número.

Detalhe tv: UM HOMEM 40 ANOS, de terno e gravata corre pela rua com uma bolsa em suas mãos. UMA SENHORA, logo atrás brandindo os punhos.

INT – BANHEIRO – DIA

Banheiro pequeno e sujo.

Marcus está parado frente à banheira.

Detalhe de banheira cheia de lama.

Marcus entra na banheira e toma um banho de lama.

EXT – CAMPO – DIA

Marcus está com uma sacola de pano nas mãos.

Ele alimenta uma vaca com o conteúdo dessa sacola.

MARCUS
(V.O)

Tomei meu banho de lama e alimentei minhas vacas com o mel que me tinha sobrado da última colheita. As picadas em meus braços inchados pela alergia não me incomodavam.

Detalhe de braço: braço com picadas, completamente roxas (marcas de viciado).

Marcus abaixo o braço e observa seus pés.

Detalhe de meias furadas. E no chão algumas bananas.

EXT – RUELA – DIA

Marcus caminha por uma ruela e entra numa loja (câmera continua do lado de fora).

MARCUS
(V.O)

Andei um bocado até a loja de alfinetes que ficava na divisa da cidade, como todos sabem é ilegal vendê-los em época de soltura das senhoras já muito idosas e sem gosto na boca.

(MULHER DE 60 ANOS pára na frente da câmera, com olhos vermelhos) e sorri maliciosamente.

MARCUS
(V.O)

Maníacas!

MULHER SAI CORRENDO.




MARCUS
(V.O)

Tentei evitar o pensamento de passar mais uma noite na prisão, mas, minhas meias precisavam de reparos imediatos. Tudo causado pela briga na noite anterior, malditas unhas mal cortadas. Apesar das minhas meias furadas e sujas de sangue.. eu não me incomodava..




BLACK


MARCUS
(V.O)

Não tanto.

INT – SALA ESCURA

Sala completamente escura a não ser pela luz que ilumina Marcus.

Detalhe de mão de Marcus: três moedas e um clipe de papel.

MARCUS
(V.O)

Quando descobri que me tinham sobrado apenas 3 centavos por conta de uma aposta com uma prostituta do norte da Argélia, não me incomodei.

Ele caminha até DIABO, 30 anos, vestindo um terno escuro, atrás de uma bancada, fumando um cigarro.

Diabo oferece uma agulha para Marcus e um papel e caneta.





MARCUS
(V.O)

Fui à loja de penhores e dei como garantia minha alma.




INT – SALA CABANA – DIA

MARCUS
(V.O)

Voltei para minha casa e costurei minhas meias, o rádio anunciava o fim do mundo, não me incomodei tanto. Tinha ainda meus 3 centavos e minhas meias consertadas enquanto um penhor louco tinha uma alma que não valia mais nada.

INT – SALA ESCURA

Diabo rasga o contrato raivoso.

INT – SALA CABANA – DIA

MARCUS
(V.O)

Enquanto isso as minhas vacas eram atacadas por idosas malucas munidas de agulhas de crochê e bengalas em suas mãos sardentas e quase sem vida. E não me incomodei.

MULHER com uma agulha de crochê, olhos vermelhos, suja de sangue se escora na janela do lado de fora e observa Marcus.

Marcus relaxa no sofá vendo televisão.















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PARTE II


Black

CAIPIRA
(V.O)

Eu sabia sobre as futuras gerações. Eu os esperava.. esperava com os olhos bem abertos.

EXT – VARANDA – DIA

DETALHE: OLHOS DE CAIPIRA.

CAIPIRA
(V.O)

Seres dotados de uma força impressionante, geneticamente superiores.


INT – SALA CLARA

Sala extremamente clara.


CAIPIRA
(V.O)

Sem erros em seus corpos moldados pela perfeição científica, todos eles e elas, perfeitos... ou melhor... seriam o mais perfeito que um ser humano poderia ser e seriam um pouco mais. Mesmo ultrapassando nosso senso de perfeição, nunca seriam perfeitos, mas seriam uns fodões com certeza.

Detalhes de: MULHER DE ROSTO PERFEITO.

Detalhes de: MULHER DE CORPO PERFEITO.

Detalhes de: Homem de corpo perfeito.

Mulher de rosto perfeito sorri levemente.



EXT – VARANDA – DIA

CAIPIRA, 40 anos, sentado numa cadeira de balanço. Ao seu lado um cachorro velho.

Ele balança lentamente observando o horizonte e acariciando uma arma.

CAIPIRA
(V.O)

Estaria velho, gordo, fraco e barbudo. Estaria usando uma roupa rasgada,fudida, fora de moda e fedendo à cigarro e bebida barata. Estaria parado na varanda, com minha arma carregada (engatilha a arma). Estaria pronto para todos esses filhas-da-puta!

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